Vou falar com você do jeito que ninguém fala. Porque eu sei como é ser o cara que todo mundo acha que tá bem.
Você acorda já cansado. Pega o celular antes de levantar e, quando vê, foi uma hora e você não fez nada.
À noite é pior. A casa fica quieta e vem aquela voz: “que porra eu tô fazendo da minha vida?”
Aí você abre o celular de novo. Rola, assiste, abre aquele site que você jura que é a última vez. Não é prazer, é anestesia. É pra não ter que pensar.
Depois vem o vazio. Aquele nojo de si mesmo que você conhece bem e não conta pra ninguém.
Você já ensaiou a conversa. Chegar na sua mãe e dizer “agora vai”. Ensaiou tantas vezes que nem acredita mais na própria voz.
Você vê cara mais novo comprando carro, ajudando os pais. Dá parabéns sorrindo, e por dentro alguma coisa apodrece mais um pouco.
O pior não é a falta de dinheiro. É ser o ajudado. É aceitar o Pix da mãe fingindo que é empréstimo e não conseguir olhar seu pai no olho.
Tem um medo que você nunca disse em voz alta: ser a decepção da família. O filho que “é inteligente, só não se esforça”.
E num dia ruim, sozinho, você já pensou. Não falou. Mas pensou.




